
Se você está aqui, é porque acredita que existe ALGO maior que você, e esse algo — essa força divina, que você pode chamar de diversos nomes — possa se comunicar com você. Por acreditar nisso, rezamos, oramos, meditamos e cantamos mantras todos os dias. Outros se conectam nadando no mar, ou passeando por uma floresta. Para estes, a natureza provê o refúgio de paz e entrega as respostas para as suas dúvidas internas. Muitos apenas fazem silêncio, e se encontram em seus templos internos. De qualquer forma, seja lá a forma com que você se conecta, há uma comunicação envolvida nessa relação. Você fecha os olhos e se aproxima. Muitas dessas vezes, o Sagrado responde às suas súplicas trazendo calma e sabedoria.
Esse curso acredita nisso, e afirma: essa comunicação também pode acontecer através da escrita.
Quando fazemos nossas preces ou meditamos, estamos em busca de respostas. Essas respostas podem ser simples ou complexas, podem sequer parecer respostas, e são geralmente íntimas. Elas chegam em forma de paz interior, alívio ou calma. Você estendeu sua dor adiante, e a sua divindade a recebeu. Nesse curso, colocaremos nossas dores no papel, endereçando as cartas a quem acreditamos.
Essas cartas são tentativas de alcançar o nosso íntimo. De lançar luz sobre o desconhecido. De tirar, dessa reflexão, alguma resposta.
As perguntas que você se faz são variações das eternas perguntas que nos fazemos todos os dias:
Por que eu não estou me movendo adiante?
Como fazer para que isso não me afete?
Como posso mudar o rumo da minha vida?
Como posso me livrar desse problema?
Como posso conseguir o que tanto sonho?
À medida que você vai escrevendo, você vai sentindo que há uma parte dentro de nós disposta a responder essas perguntas. Essas respostas minam de dentro, como água de uma fonte vinda do interior da terra. E você se pergunta: como você não viu aquilo antes? Aquela era a resposta que você procurava!
Um exemplo de como nossa intuição pode nos tirar de situações difíceis (e travar diálogos com ela pode nos trazer benefícios)
Minha história: escrever como forma de obter respostas
Quem escreve muito, e se dedica a escrever, verdadeiramente mergulhada na escrita, sabe que, em algum momento, o inconsciente toma conta da caneta e você acaba escrevendo coisas que nem sabia ser capaz de escrever. Eu sabia que minhas incursões pela escrita estavam abrindo portas que nunca tinham sido abertas, e que deveria haver uma explicação psicológica para a escrita mexer com a nossa psique.
Então eu vou contar aqui, rapidinho, como essa escrita me ajudou a entender algo que eu não tava conseguindo entender, aliviou minhas angustias na época e me ajudou, inclusive, a montar o caminho interior.
Eu vinha escrevendo, diariamente, pela manha. Ia falando sobre a vida, tocando em assuntos delicados, escavando o interior.
E aí, no dia 17 de fevereiro de 2017, aconteceu algo engraçado. Eu estava na cozinha fazendo o almoço. Tinha sido uma semana difícil – a crise no Brasil estava esvaziando os consultórios de psicologia, eu estava tentando me firmar na área depois de anos morando fora. As coisas simplesmente não estavam rolando. Eu queria fazer algo, uma “ coisa “ que não tinha forma nem nome, e a situação inteira parecia inviável. Eu sabia que essa coisa precisaria unir a escrita à psicologia. Mas como casar esses dois? (eu não conseguia abrir mão de nenhum). Foi então que nesse dia, enquanto cozinhava e ouvia um podcast com uma professora de escrita, tive o primeiro vislumbre. A entrevistadora tinha acabado de fazer uma pergunta para a professora e, enquanto a professora pensava, uma parte minha que eu nem sabia que estava prestando atenção respondeu por mim. A resposta me assustou porque eu não estava preparada para ouvi-la. Saiu de mim, mas não era eu, sabe? (Embora seja eu de muitas maneiras, mas não um eu-consciente).
Minha resposta foi muito melhor que a resposta da entrevistada, que enrolou demais para dizer o óbvio. Mas a minha resposta foi tão revolucionária que a partir dela eu criei o meu curso de escrita terapêutica.
Eu procurava aquela resposta há tempos, e essa parte minha sabia. De alguma forma a pergunta que eu me fazia (como juntar as duas coisas que mais amo? como trabalhar com uma sem abrir mão de outra?) estava cozinhando dentro de mim. Quando a resposta veio, ela roubou o meu chão.
O que eu não sabia é que, uma vez reconhecida (ou ouvida, ou revelada) a Voz não fazia questão de voltar para o lugar de onde veio.
Com medo, resolvi não agir sobre as conclusões a que cheguei depois daquele 17 de fevereiro. Eu estava morrendo de medo de tentar. De falhar, de gastar dinheiro, de me arriscar na crise, etc, etc, etc.
Foi então que eu passei a ter sonhos muito estranhos.
Sonhei que estava em uma ilha e que tinha muito medo de mergulhar no mar escuro que a envolvia. Que uma voz – essa mesma voz – sussurrava no meu ouvido: “salte”. Enquanto ouvia o “salte”, eu via imensas enguias marinhas levantarem a água da superfície. Se eram enguias, cobras imensas, dragões – eu não fazia ideia – só sei que naquela água eu não mergulharia de jeito nenhum. Pular aí? Nem morta!
Mas o sonho não teve a menor piedade de mim: colocou a seguir, a cerca de cem metros de onde eu estava, minha filha de cinco anos debatendo-se na água, como se estivesse se afogando. Tudo aconteceu muito rápido depois dessa cena: o medo das enguias, o pavor de ver a filha pequena na água, o sussurro “salte”.
No próximo segundo estou olhando para a menina e franzindo a cara. Espera aí: aquela não é a minha filha.
Aquela ali se afogando sou eu.
Acordei na mesma hora.
Depois desse sonho seguiram-se outros – todos estranhos, todos ao redor da água, eu sempre em segurança na areia. Como em toda virada da vida, nessa mesma época eu colocava as mãos no livro O caminho do artista, da maravilhosa Julia Cameron. Nele, a autora falava sobre as páginas matinais, o que ela chamava de “ponte até o outro lado”.
Que outro lado, você se pergunta?
Escrever é terapêutico. Nossos pensamentos não seguem uma ordem, uma linha clara e precisa. Eles são uma mistura de lembranças, recortes do dia, pulos no passado, sentimentos sem nome, ansiedades diversas. Mas quando escrevemos, algo muda: nossas ideias se organizam em fila. A escrita ajuda a rastrear os pensamentos e acalmar os sentimentos, e com isso ganhamos foco e clareza sobre o que estamos passando. É por isso que escrever nos ajuda a chegar perto das respostas para os conflitos do dia a dia.
Por que escrever? Não existe outra maneira de acessar a nossa voz interior?
Existe, claro. Escrever não é o único meio de contato com a Voz. Podemos rezar e conversar com o divino; podemos meditar e sentir-nos conectados (as) ao divino, podemos até mesmo caminhar e nos sentir conectados ao divino. São muitos os caminhos que levam a Deus.
Mas podemos também escrever, e esse é um meio bastante eficiente.
Como pode uma coisa tão corriqueira, costumeira, diária, como escrever, nos colocar em contato com o divino? As respostas são simples:
escrever aquieta os pensamentos
nos faz submergir em nós mesmos
silencia a mente.
Essas são características conhecidas por aqueles que se conectam-se com o divino (através de reza, meditação ou danças xamânicas, por exemplo.)
Além disso, escrever também:
Oferece a chance de exploração interna
De autoconhecimento
Nos ajuda na recuperação de memórias
Melhora o foco e a organização de ideias
Incentiva o relacionamento entre você com você mesmo(a).
Que são, reconhecidamente, pontos positivos da escrita terapêutica.
Para quem ainda não conhece a escrita terapêutica, ela é um tipo de terapia que se utiliza da escrita como forma de cura e autodesenvolvimento. Por ser um ato introspectivo, pessoal e emocional, acaba funcionando como uma descarga de sentimentos e emoções, aliviando mente e alma de maneira segura e íntima. Quando escrevemos nos acalmamos, afastamos a mente racional do processo e permitimos, assim, que essa conexão íntima com o Sagrado se estabeleça.
Se deseja saber mais sobre escrita terapêutica, clique em www.ocaminhointerior.com.br. Lá você pode aprender mais sobre esse tipo de terapia, e conhecer os benefícios da escrita para a saúde.
O benefício das Cartas:
Cartas (como muitos outros documentos escritos) podem:
potencializar em até quatro vezes o impacto da terapia sobre os pacientes (White, 1995)
servir de desabafo e exercício imaginativo
servir como um registro da época e de sua melhora
podem ser destinadas a pessoas que se foram, ou aquelas que não conseguimos alcançar
ajudar a começar um diálogo difícil que você precisa travar
dizer o que a boca não consegue e para dar conselhos a nós mesmos
são ferramentas poderosas no nosso processo de arqueologia interna
dão vozes a histórias que nos foram roubadas, silenciadas, proibidas ou esquecidas
são um meio seguro de expressar angústias
Além disso, elas encorpam nossas narrativas definidoras, aquelas que flutuam sem linhas firmes, no aguardo de uma caneta disposta a eternizá-las.
Da mesma maneira que na terapia “soltamos” verdades entre as falas (chamadas de lapsos de linguagem), na escrita pode ocorrer o mesmo. É na "brecha" da mente que se infiltra a alma.
Afastar a mente do processo da escrita não é algo novo. A técnica foi sugerida ainda na década de 30 por Dorothea Brande, escritora e professora de escrita criativa (professora de Ray Bradbury, entre outros famosos). No decorrer dos anos ela foi sendo disseminada por seus pupilos e mundialmente espalhada por duas escritoras sensacionais: Natalie Golberg, de Escrevendo com a Alma, e Julia Cameron, do Caminho do Artista.
Nessas páginas (que Julia Cameron chama de páginas matinais) você começa escrevendo sobre qualquer coisa, desde que sua mão não pare de se mover um só instante. O segredo dessa escrita está no efeito que ela causa em nossa psique. Ela tira o nosso cérebro do palco e deixa emergir o nosso "lado artístico”, o inconsciente. E é através desse lugar que surgirá a voz.
As páginas matinais costumam fazer milagres na nossa psique. Eu sei porque as faço.
No início você não escreverá nada que preste. Vai escrever sobre seu aborrecimento, suas inseguranças, sobre assuntos irrelevantes, até que, mais ou menos na metade do exercício, sua letra irá mudar. Você não será mais você, ou sentirá um sutil deslocamento no tópico. A energia das palavras vai oscilar entre aborrecida/sonolenta, até mesmo chata para uma escrita enérgica, positiva e destemida, que é uma característica da nossa mente selvagem. Mas então algo vai acontecer.
É normal que você não consiga estabelecer a rotina de escrita de primeira. Eu tentei por uns dias e desisti, porque minha resistência e meu censor fizeram um bom trabalho. Eu disse que gostava demais de dormir para isso. Só que gosto mais de criar do que de dormir (bem, talvez não, mas posso ceder meia hora de sono para a manhã por minha criação), então retornei.
Com o tempo algo mudou. Ao invés de escrever sobre qualquer coisa, passei a dialogar com o outro lado. Passei a escrever “Querida Voz” no início e a me despedir no final. As páginas viraram cartas. Eu comecei a escrever perguntas. E as respostas não tardaram.
Existe diferença entre as páginas matinais de Julia Cameron e as cartas que escreveremos para Deus?
Embora ambas visem acesso ao veio interior — às imagens e mensagens que só sobem à consciência através de sonhos crípticos (ou lapsos de linguagem) —, as cartas para Deus são profundamente pessoais.
Ela não visa a criatividade para aplicação posterior em um projeto, ou apenas autoconhecimento para satisfazer qualquer demanda do ego ou do mundo externo. As cartas são um apelo. Elas tem carga emocional, e a intenção clara de ouvir Dele o que está acontecendo com a nossa vida.
Para onde vamos agora?
O que fazer nessa situação?
As cartas são, além disso, profundamente verdadeiras.
Não que a outra escrita não seja - é que as cartas são mais. Elas falam sobre a suas verdades mais secretas. Nelas trataremos de nós, de nossos sentimentos, emoções, sensações, receios, anseios. Nela pedimos ajuda. E pelo fato de as endereçarmos para Deus, ou para o Sagrado (essencialmene bom), teremos respostas boas e positivas como resposta. A resposta sugerirá que perdoemos quem não queremos perdoar. Que esqueçamos quem não queremos esquecer. Ela oferecerá verdades, e dessa troca você pode esperar redenção e perdão - com o mundo e consigo mesmo.
Escrever substitui a terapia?
Não. Escrever é um ato seguro, escrever as cartas será extremamente seguro, mas é importante frisar que escrever não substitui o tratamento presencial se você batalha contra algum tipo de condição psicológica. Procure apoio profissional (médico e/ou psicológico) e nunca enfrente uma situação difícil sozinho(a).
Existe o local perfeito ou ideal para escrever? Um caderno especial? Escrever à mão ou à caneta? E qual seria o melhor horário?
Não existe lugar perfeito, mas você pode montar o seu lugar especial. Uma mesa, um ambiente arejado, a oportunidade de olhar para fora, para o céu. Se de manhã ou à noite, só você saberá qual é o seu melhor horário.
Necessário, entretanto, é que você sinta paz ao escrever. Que tenha persistência e insista no silêncio. Que mantenha o ouvido apurado para a voz de dentro.
Chegue a esse local, seja de manhã ou de noite, com a intenção de ter a conversa mais significativa da sua vida. Feche os olhos e respire profundamente algumas vezes. Para mim, ajuda muito fazer uma meditação guiada. Essa, abaixo, é simples e rápida:
“Inspire profundamente e tente ouvir a batida do seu coração. Quando encontrá-la, sincronize a batida com a sua respiração. Tente fazer os dois funcionarem no mesmo ritmo, como uma música. Inspira-batida-batida-batida-expira. Atente ao ritmo que eles formam. Quando ambos estiverem em harmonia, abra os olhos, pegue a caneta e escreva a carta.“
Em seguida, escolha uma carta e pergunte o que quiser. Com o tempo você não precisará do guia que elas oferecem: passará a escrever sobre o que quiser.
As cartas precisam ser escritas à mão?
Sim, precisam. As cartas são um tipo “artesanal” de escrita. São íntimas, lápis no papel. Escrever é um treino na arte de perceber o mundo, e a escrita manual exercita a receptividade, que é essa capacidade de estar aberto para ver o que o mundo oferece.
Lembre-se: a mão está conectada ao braço, o braço ao ombro, o ombro ao tronco, o tronco ao coração. Existe algo na escrita à mão intimamente poderoso. Ao escrevermos com a mão, as palavras parecem vir diretamente do coração. Se duvida, faça o teste!
Estou pronto. Que material preciso para começar?
Apenas de um caderno, uma caneta macia e tempo.
Não desista. Não deixe-se convencer que amanhã você começa.
Sente-se de olhos fechados na frente do caderno, com a caneta ao lado. Sinta a batida do seu coração e pergunte-se:
Como me sinto?
Não tente empurrar as palavras no papel, apenas reflita sobre o seu estado. Se conseguir, escreva algumas frases no caderno.
Você começará a se ouvir: ouça-se. Siga a sua intuição. Siga a direção da voz sutil que sussurra no seu ouvido. O que virá vem de uma instancia antiga e autêntica, visceral. Você estará o tempo todo consciente do que está acontecendo, apenas mais liberto de amarras.
Se tiver acesso a uma imagem interna, tente descrevê-la e seja fiel na descrição. Resista a qualquer pressão consciente para ajustá-la ou colocar um sentido definido. Estamos sendo instruídos por elas, mesmo que não saibamos o que elas significam – faça com que cheguem ao papel.
“Pergunte, e suas mãos lhe responderão.” - Julia Cameron
Algumas últimas palavras antes de começar. Baixe o documento e leia sempre que precisar de apoio!
Misteriosos Caminhos
Comece fazendo perguntas. Perguntas pedem respostas, e são uma forma de convidar a Voz a comparecer.
Quem é você?
Qualquer carta precisa de um remetente e um destinatário. Seja um remetente sincero, verdadeiro em cada letra. Flua da caneta para o papel, despeje-se pouco a pouco entre as linhas. Estabeleça ali sua conexão com quem receberá sua mensagem. Ouça o que a Voz responde.
Carta 3
Nosso corpo, nossa casa
O símbolo “casa” tem uma enorme importância para a nossa psique. A casa é a nossa morada, o nosso corpo, o lugar onde habitamos. Querermos ser acolhidos, sentir-nos seguros, saber que estamos assentados sobre um chão sólido.
A metáfora da casa é tão potente que podemos aprender sobre nós apenas investigando nossa relação com esses espaços. Escreva uma carta para Deus e pergunte sobre sua morada nesse planeta.
Como ser humano neste planeta, você não consegue existir por trinta segundos sem desejar algo. – Provérbio Budista
Anseios
C.S. Lewis, em O problema do Sofrimento, descreve a falta da seguinte maneira:
"...Todas as coisas que possuíram profundamente sua alma foram apenas sugestões dela - vislumbres tentadores, promessas nunca completamente cumpridas, ecos que desapareceram assim que chegaram ao seu ouvido. Mas se ele [o anseio] realmente se tornar manifesto - se alguma vez apareceu um eco que não morreu, mas sim inchou-se ao próprio som – você saberá. Além de qualquer possibilidade de dúvida, você diria: "Aqui está, finalmente, a coisa para a qual fui feito". Não podemos contar uns aos outros sobre isso. É a assinatura secreta de cada alma, a incomunicável e inabalável vontade. . . Que ainda desejamos em nossos leitos mortais. . . Seu lugar no céu parecerá ser feito para você e para você só, porque você foi feito para ele - feito para ele ponto por ponto como uma luva é feita para uma mão."
Qual é o meu maior anseio?
Anseio é mais que desejo: mais profundo, mais inquietante, mais essencial e revelador sobre quem somos. Anseio passa a ideia de um desejo incômodo e faltoso; ele opera em um nível mais estrutural e mais profundo que o termo desejo, muito usado no dia a dia.
Qual é o meu anseio? O que essa falta está tentando me dizer?
Às vezes amamos o errado. A pessoa errada. Ou a que não é (ou era) a certa para nós.
As vezes achamos a correta, mas a antiga continua a nos rodear. Espicha seus tentáculos, invade nossos sonhos, mostra sua cara onde não a queremos ver.
Por que?
Quanto mais fugimos delas, mais elas surgem. Mais parecem nos assombrar.
Por que isso acontece?
Elas estão mandando um recado para você, e você pode (por que não?) parar para escutá-las.
Confie na sua voz.
O OLHAR QUE NOS dá forma
Todos queremos ser olhados. Vistos, notados, compreendidos. Ser ignorado — deixar de existir para alguém — é uma grande, senão a maior das misérias humanas. Para que tenhamos a sensação de estar aqui, de existir, precisamos que alguém nos veja.
Fardos
Todos nós carregamos um fardo sobre os ombros. Para alguns este fardo é imensamente pesado e triste, para outros a carga é mais leve. O fato é que todos carregamos uma cruz.
Cruzes podem ser tristezas. Uma rejeição. Uma traição. Uma demissão. A falta de recursos. A falta de apoio. A falta de orientação. A falta de amor. Um sonho não realizado.
Esse peso ou essa falta - ambos doloridos e dolorosos - tomam um tempo impressionante de nossos pensamentos. Esse tempo perdido não nos é devolvido mais tarde: ele é perdido. Impedem-nos de ir atrás do amor não vivido, de uma segunda chance, da redenção, de um novo sonho.
Nossos primeiros anos deixaram marcas indeléveis em nossa alma. Amamos profundamente as pessoas que passaram por nossa infância, e, às vezes, os detestamos com igual intensidade. O fato é que ninguém se cura da infância, li certa vez. Essas vozes no passado seguem moldando nossas condutas, fazendo-nos sorrir ou sofrer, determinam nossos passos, e deixam a vida mais clara ou mais nebulosa.
No entanto, não precisa ser assim. É a nossa releitura daquela época que deixa tudo difícil (assim como também deixa mais fácil)
As próximas duas cartas são parecidas, mas ao mesmo tempo profundamente diferentes. Na primeira, você escreverá para Deus para entender o papel que alguém maravilhoso desempenhou na sua vida. Na segunda, o inverso. Que papel alguém terrível desempenhou nela?
Carta 9
Nós iluminamos o mundo seguindo o que nos ilumina. — Janet Conner
A sua hora
Quando chegará “a minha hora”?
Muitas vezes escrevi sobre isso nas minhas cartas: quando chegará a minha hora? Quando conseguirei chegar ao lugar que visualizei na minha vida pessoal ou na carreira? Que mudanças estão vindo na minha direção? Como saberei recebê-las? Como saber que elas estão vindo? Eu as reconhecerei?
Nem sempre alcançamos aquilo que sonhamos um dia ser ou fazer, e temos poucas pessoas com quem conversar sobre isso. Leve essas perguntas até Ele. Espere pela resposta que acalmará seu coração, e te preparará para os seus planos.
Os sonhos mais antigos
“Nós iluminamos o mundo seguindo o que nos ilumina”. — Janet Conner
A investigação sobre o que amamos e nascemos para fazer pode ir ainda mais longe. Pergunte a si mesmo quais são seus sonhos mais antigos. O andaime sobre o qual os novos sonhos foram construídos, a estrutura sobre a qual se ergue tudo que você quis fazer e ainda quer. Pergunte à voz, peça a ela ajuda para responder esse inventário interno. Siga a trilha do que ama e chegará até o seu tesouro.
"As coisas sobre as quais você é apaixonado não são aleatórias, são sua vocação" — Fabienne Frederickson
Os sonhos e a falta de palavras
Nem sempre conseguiremos uma resposta de Deus em forma de palavras. Muitas vezes a resposta vem em forma de sensação, de imagem, de idéia vaga — como nos sonhos. Às vezes essas respostas só farão sentido mais tarde, quando entender o quebra-cabeça que montamos internamente.
Embora palavras sirvam para traduzir sensações, às vezes elas falham na tarefa. Pense em seus sonhos, por exemplo. Em seus conteúdos crípticos e de difícil explicação. Lembra do meu sonho da ilha, das enguias, do meu eu-criança se afogando? Por vezes tudo que me recordo daquele momento são as sensações que o sonho deixou - o enrijecimento na base do estômago, a sensação de estar entre a cruz e a espada. Como traduzir isso no papel? É difícil mesmo, mas com o tempo vamos ficando melhores.
Respostas que vem de dentro (ou “do céu”) muitas vezes manifestam-se no corpo em forma de arrepios, sensações na base do estômago, batimentos acelerados. Traduzir essas sensações de forma satisfatória para nós mesmos é complicado! O inconsciente é casa de imagens míticas, criptografaras, mascaradas por vestes ancestrais. Se uma imagem capturar melhor a resposta, traga-a para o papel. Se vier em forma de frase, escreva-a e pense nela mais tarde. Se vier em forma de animal, tente entender o que aquele animal significa para você.
Lembra do sonho em que eu via as enguias revolverem-se sob a água do mar? As enguias significam algo muito importante, e os sonhos faziam uma brincadeira com o nome: não eram enguias, eram “guias”que estavam sob a superfície da consciência. Em outro sonho muito parecido, eu estava em uma praia ensolarada, na areia, com os pés firmes no chão. Dali eu via sair da água algo grande, vindo diretamente na minha direção. Não lembro de ter sentido medo, e sim de não entender o que poderia ser um bicho daquele tamanho vindo até a mim. Pensei em monstros, mas foi então que reconheci o animal: era uma MORSA. E a morsa vinha na minha direção, e ao olhar para a direita, vinha outra, idêntica aquela da água.
Demorei para entender esse sonho, por que procurava um significado no animal. O que uma morsa poderia significar?
Acontece que o inconsciente se manifesta em metáforas (condensações, ou substituições) e metonímias (deslocamento). Estava explicado o meu sonho: era um jogo de palavras. Morsa significava morse. Como código morse. Era um código, era críptico, e eu precisava desvendar o que saía dali, da água — do meu inconsciente.
Quando receber uma resposta de Deus para a sua pergunta, não se afobe em entendê-la imediatamente. Anote a resposta, e comece a investigação. Respeite as sensações do corpo. Tente correlacionar a imagem que veio com algo em sua vida.
Conflitos Familiares
Nem sempre pensamos como aqueles que mais amamos no mundo. Somos diferentes, e isso gera conflitos. Algumas decisões, ideias e posicionamentos de nossos pais nos parecem errados, inválidos, e expirados — no entanto, não seguir pelos caminhos que eles andam nos inquieta.
Estar contra eles nos causa mal estar. Somos programados para respeitá-los, e nos sentimos mal em nos posicionar no campo adversário — ou mesmo fora do campo deles.
Escreva uma carta para Deus perguntando que Ele acha a respeito. Deus é amor, é compreensão muito além do que podemos conceber. É claro que ele terá a resposta para a sua dor.
Escreva para Ele e peça uma resposta para apaziguar seu coração.
Relacionamentos
“Viver é fácil, as pessoas que são difíceis”. Você já se deparou com essa frase? Concorda com ela? Discorda?
Somos seres sociais. Vivemos em comunidade, existimos próximos e por causa de outros, nos encontramos (e desencontramos) em pessoas todos os dias, durante toda a vida. No entanto, é delas que vêm a maioria de nossos problemas.
Entender a relação que temos com elas ajuda a entender a relação que temos com a gente mesmo. Assim que começar a trocar cartas com Deus, você sentirá que está ficando mais claro para si mesmo. Isso acontece por que você está começando a reconhecer quem você é.
Você entenderá principalmente que as pessoas à sua volta desempenham muitas vezes o papel de espelhos. Elas refletem de volta o que acreditamos, o que sentimos sobre nós e o mundo e principalmente os nossos defeitos.
Para a próxima carta, escreva uma lista de 10 pessoas que admira enormemente, e 5 que detesta com todas as forças.
Em seguida, escreva a carta para Deus.
Resistências
Viver é resistir. É lutar contra medidas desumanas, condições inaceitáveis e ideias que ferem inocentes. No entanto, resistimos não apenas a coisas ruins, como também a coisas boas. Deixamos passar oportunidades de crescimento, e de avançar milhas no caminho até Deus.
Converse com Ele sobre resistência. Tente entender como a sua está funcionando para você.
“Toda a dor pode ser tolerada se você a coloca em forma de história e a conta para alguém.” — Isak Dinesen
Culpa e vergonha
Todos passamos por épocas ruins. No entanto, há épocas ruins que nunca nos abandonam. São nossas nuvens escuras particulares, aquelas que nos acompanham onde vamos.
Que tipos de emoções pesarosas estão nublando sua vida e impedindo você de ser plenamente feliz? O que a culpa, a vergonha e o luto deixaram para trás na sua vida?
O que dispara, na atualidade, esses pensamentos?
Escreva para Deus sobre os seus arrependimentos. As culpas que carrega merecidamente, e aquelas que não deveria carregar, mas carrega mesmo assim.
“Em tempos escuros, os olhos começam a ver” — Theodore Roethke
“Perdoar é uma das mais poderosas armas para a nossa recuperação emocional. Perdoar é aceitar o ocorrido, mas se concentrar no futuro. Perdoar é algo que você faz para a sua própria cura interior, embora aceite que o benefício do perdão se estenda a quem lhe machucou. Perdoar é se recusar a viver preso( a) ao nível do ego, do medo, do rancor e da raiva. É priorizar suas verdades internas. Precisamos, sem dúvidas, dizer "não" ao abuso, ao medo, à crueldade e à destruição que sofremos ou causamos. Precisamos estender a nós os mesmos benefícios que concedemos aos outros, rejeitando o abuso próprio, o medo da alma, a crueldade que infligimos à mente e ao corpo e a destruição de nossas esperanças."
Isso é perdão, e não há paz sem ele.
Mas o que não é perdão ? Perdoar não significa que você está desculpando as ações nocivas de outra pessoa. Significa que as ações nocivas que você sofreu não afetam mais você. Perdoar não significa que você precisa dizer a pessoa que ele ou ela está perdoada; perdoar é uma decisão íntima e pessoal, e deve, se desejado, continuar assim. Perdoar não indica que as coisas vão bem no relacionamento; perdoar significa que você sabe o que não vai bem, e tomou a decisão de não sofrer mais por causa daquilo. Perdoar não significa que você deve esquecer o incidente doloroso ou voltar a se relacionar com a pessoa que lhe feriu (ou, se no caso de ter causado o incidente, não significa que fará novamente). Perdoar é não deixar mais que o passado continue ferindo você no presente e atrapalhando o futuro.”
Fonte: Saindo da Depressão uma palavra por vez: Guia de escrita terapêutica. O Caminho Interior.
As palavras escritas exercem uma poderosa influência sobre nós, e sempre causarão uma reação emocional tanto em quem as escreve quanto em quem as lê.
Algumas questões, no entanto, são difíceis de sair (seja pela fala ou através da escrita). Precisamos lidar com resistência, desânimo, descrença e dor. Na escrita terapêutica, escrevemos como modo de atravessar uma ponte. Como forma de alcançarmos uma nova perspectiva. Se as palavras carregam significados e representam experiências carregadas de emoções, escrever é uma forma de liberar energia e desembaraçar o que está embolado.
Cartas (como muitos outros documentos escritos) podem potencializar em até quatro vezes o impacto da terapia sobre os pacientes (White, 1995). Elas podem ser escritas para uma miríade de fins - e nunca enviadas. Podem servir de desabafo e exercício imaginativo, ou mesmo como um registro de melhora.
Cartas podem ser destinadas a pessoas que se foram. Para aquelas que não conseguimos alcançar. Para começar um diálogo difícil. Para dizer o que a boca não consegue. Para dar conselhos a nós mesmos.
E, também, podem ser direcionadas pra o divino.
Como um curso 'não denominacional', chame o destinatário de Deus, Anjos, voz Interior, ou qualquer outro nome. O importante é conversar com algo ou alguém maior que nós mesmos.
Se você está aqui, é porque acredita que o Sagrado pode se comunicar através de suas mãos.Que há um modo de acessar o divino, — como em um mantra, ou uma reza — e receber dele uma resposta.
Transforme a resposta em palavras escritas.